A teoria crítica da tecnologia é uma abordagem associada principalmente a Andrew Feenberg que recusa a ideia de que a tecnologia seja uma ferramenta neutra, determinada apenas pela eficiência, e também a noção de que ela imponha um destino inevitavelmente opressor à sociedade. Máquinas, plataformas, sistemas de gestão e algoritmos carregam escolhas sociais em seu próprio desenho: definem quem controla, quem executa, o que conta como produtividade e quais vidas podem ser descartadas. Por isso, a técnica pode e deve ser objeto de luta política, especialmente por trabalhadores e usuários submetidos às decisões de empresas e governos.

Da crítica da racionalidade à disputa pelo desenho

Feenberg dialoga com a tradição da Teoria Crítica, em particular com Herbert Marcuse. Essa tradição percebeu que, no capitalismo avançado, a dominação não age somente pela ordem explícita do patrão ou pela repressão estatal: ela também se organiza por formas de racionalidade que parecem puramente técnicas. Quando uma empresa diz que um sistema é "objetivo", que uma meta foi calculada por dados ou que um algoritmo apenas otimiza rotas, pode estar apresentando como necessidade técnica uma decisão sobre trabalho, custo e poder.

Isso não significa que a técnica seja uma ilusão ou que qualquer artefato possa servir igualmente a qualquer finalidade. Uma plataforma de entregas, por exemplo, depende de infraestrutura digital, geolocalização, pagamento e logística. Mas há muitas formas possíveis de organizar esses elementos. O aplicativo pode concentrar preços, punições e informações nas mãos da empresa, como ocorre nas plataformas dominantes; ou poderia ser construído com transparência sobre tarifas, controle coletivo das regras e participação efetiva dos entregadores. A forma técnica existente não é a única que a técnica poderia assumir.

Feenberg chama atenção para o código técnico: o conjunto de critérios sociais que se materializa nos dispositivos e sistemas. Um código técnico pode privilegiar velocidade sobre segurança, vigilância sobre autonomia, redução de custos sobre qualidade do serviço. Não aparece necessariamente escrito como ideologia. Ele está na câmera que monitora o operador, no software que mede cada segundo do atendente de call center e na interface que torna difícil ao trabalhador contestar um bloqueio.

Além do otimismo e do fatalismo

O instrumentalismo costuma afirmar que a tecnologia é neutra e que tudo depende do uso. Nessa visão, um algoritmo seria como um martelo: poderia servir ao bem ou ao mal conforme a intenção de quem o utiliza. O problema é que algoritmos, aplicativos e máquinas não chegam prontos de uma natureza exterior. São projetados, financiados, testados e regulados em instituições concretas. Se uma plataforma esconde os critérios de remuneração e transfere os riscos para o entregador, isso não é um uso acidental de uma ferramenta neutra; é parte de seu modelo de negócio inscrito na arquitetura do sistema.

No extremo oposto, o determinismo tecnológico trata a técnica como força autônoma, diante da qual restaria apenas adaptar-se ou lamentar. Feenberg critica esse fatalismo porque ele transforma decisões empresariais em destino histórico. Dizer que a inteligência artificial inevitavelmente eliminará empregos, por exemplo, encobre as perguntas decisivas: quais tarefas serão automatizadas, quem será demitido, quem ficará com os ganhos de produtividade e quais serviços socialmente necessários poderiam ter sua jornada reduzida em vez de seu pessoal cortado?

A teoria crítica não promete que toda inovação será emancipadora. Ela sustenta que a democratização da tecnologia exige conflito, organização e transformação institucional. Participação não é uma pesquisa de satisfação depois que o produto está pronto. É poder intervir nos objetivos, nas regras e nos critérios que orientam o desenvolvimento técnico.

Tecnologia e trabalho no Brasil

No Brasil, a teoria crítica da tecnologia ajuda a enxergar a uberização para além do discurso do empreendedorismo. O entregador chamado de "parceiro" não escolhe livremente em um mercado transparente: ele depende de um aplicativo que define acesso às corridas, preço, avaliações, incentivos e punições. A aparente autonomia de ligar e desligar o celular convive com a pressão material para permanecer disponível e aceitar jornadas extensas. O algoritmo não substitui a relação de exploração; ele a reorganiza e a torna menos visível.

Algo semelhante ocorre no call center. Scripts, métricas de atendimento, gravações e painéis em tempo real podem ser apresentados como instrumentos para melhorar o serviço. Sob comando empresarial, porém, funcionam como administração minuciosa do tempo e da fala. O trabalhador não controla o ritmo nem os critérios de qualidade; é controlado por indicadores cuja definição lhe é externa. A técnica amplifica a capacidade de vigilância e disciplina porque está integrada a uma organização do trabalho voltada ao lucro.

Também a professora submetida a plataformas educacionais encontra sistemas que prometem facilitar aulas e avaliações, mas podem impor formulários, metas e coleta de dados que reduzem a autonomia pedagógica. A questão não é recusar computadores ou recursos digitais em nome de uma sala de aula idealizada. É perguntar quem decide o que a plataforma mede, para que esses dados são usados e se a tecnologia fortalece o trabalho educativo ou o converte em alimentação de sistemas de controle.

Uma crítica material da inovação

A contribuição de Feenberg é deslocar o debate da pergunta abstrata — tecnologia é boa ou má? — para a investigação material de seus desenhos e conflitos. Quem participou da criação? Que interesses foram tratados como prioritários? Que alternativas foram descartadas? Quem pode entender, modificar ou contestar o sistema? Essas perguntas impedem tanto a propaganda corporativa da inovação inevitável quanto a nostalgia impotente de um passado sem máquinas.

Sob o capitalismo, a inovação tende a ser orientada pela acumulação, pela redução de custos e pelo aumento do controle sobre o trabalho. Mas essa tendência não elimina as brechas de disputa: mobilizações de entregadores, lutas por transparência algorítmica, organizações sindicais e reivindicações por tecnologia pública apontam que os usuários não são apenas consumidores passivos. Democratizar a técnica, nessa perspectiva, é parte da luta para democratizar as condições sociais que hoje a submetem ao capital.