Reforma é uma alteração nas leis, nas políticas públicas ou nas instituições que conquista melhorias dentro da sociedade existente, sem abolir automaticamente as relações de poder que a organizam. A redução da jornada, o aumento de salário, um serviço público ampliado ou regras contra abusos empresariais podem ser reformas decisivas para a vida da classe trabalhadora. Mas, como formulou Rosa Luxemburgo, a luta por reformas não substitui a transformação socialista: ela pode preparar trabalhadores para enfrentar a ordem capitalista ou, ao contrário, integrá-los à sua administração e preservar suas bases.

Reforma não é o contrário de revolução

Em Reforma ou Revolução?, escrito no fim do século XIX contra as teses reformistas de Eduard Bernstein, Rosa Luxemburgo combateu a ideia de que uma sequência gradual de melhorias levaria naturalmente ao socialismo. Para ela, o capitalismo não deixava de ser capitalismo porque criava leis trabalhistas, seguros sociais ou parlamentos mais amplos. Essas conquistas podiam aliviar a exploração e eram necessárias, mas não eliminavam a propriedade privada dos meios de produção, a separação entre quem trabalha e quem manda, nem a produção orientada pelo lucro.

Luxemburgo não defendia a indiferença diante de salários, direitos ou eleições. Seria absurdo dizer a uma trabalhadora de call center, submetida a metas exaustivas e vigilância digital, que uma norma contra assédio ou uma redução de jornada não importa. A crítica dela era dirigida à transformação da reforma em horizonte final: quando a política passa a tratar toda mudança possível como suficiente, ela abandona a pergunta sobre quem controla a economia e para qual finalidade.

A oposição correta, então, não está entre uma reforma concreta e uma revolução idealizada, distante e pura. Está entre duas orientações. Uma usa as reformas para aumentar a capacidade de organização, consciência e poder da classe trabalhadora. A outra busca conciliar permanentemente capital e trabalho, apresentando a estabilidade da exploração como realismo político.

Como a reforma opera no capitalismo

Reformas nascem de conflitos. Direitos que hoje parecem normais — férias, limites legais à jornada, previdência, liberdade sindical, escola pública — não foram presentes oferecidos pela classe dominante. Foram resultado de greves, mobilizações, crises políticas e medo das elites de perderem o controle. O Estado capitalista pode ceder porque precisa manter a reprodução social: uma força de trabalho exaurida, faminta ou revoltada demais torna-se menos governável.

Ao mesmo tempo, a reforma tem limites materiais. Uma empresa pode aceitar regras de segurança, desde que preserve sua taxa de lucro; um governo pode ampliar uma política social, desde que encontre meios de financiamento compatíveis com os interesses dominantes ou com a correlação de forças. Quando a rentabilidade cai ou a classe empresarial exige compensações, direitos antes apresentados como consensuais viram “custos”, “privilégios” ou obstáculos à competitividade.

É por isso que uma reforma pode ter sentidos opostos. A regulamentação de plataformas digitais, por exemplo, pode reconhecer direitos de entregadores, impedir bloqueios arbitrários e estabelecer remuneração mínima. Mas pode também criar uma aparência de proteção enquanto mantém a empresa controlando preços, dados, rotas e acesso ao trabalho. Se o entregador continua arcando com bicicleta, combustível, acidente e tempo de espera, a exploração apenas recebe uma moldura jurídica mais aceitável.

Reforma no Brasil: conquista, contenção e retrocesso

No Brasil, a história das reformas sociais é inseparável de avanços parciais e de limites estruturais. A legislação trabalhista, a previdência pública, o SUS, a educação pública e programas de transferência de renda alteraram concretamente a vida de milhões. Defendê-los contra cortes e privatizações não é apego burocrático: é defender condições materiais sem as quais a liberdade vira palavra vazia.

Mas essas políticas convivem com uma sociedade marcada pela concentração de renda, pelo poder do agronegócio, do sistema financeiro e de grandes empresas, além do racismo estrutural e da precarização. A chamada reforma trabalhista de 2017 mostra o sentido regressivo que a palavra também pode ter. Vendida como modernização, ela ampliou instrumentos de flexibilização e enfraqueceu proteções, deslocando ainda mais riscos para quem trabalha. “Reforma”, nesse caso, foi o nome ideológico de uma reorganização favorável ao capital.

O professor submetido a contratos temporários, o operador de telemarketing monitorado a cada minuto e o motorista de aplicativo sem garantia de renda conhecem esse processo no cotidiano. A técnica que promete autonomia frequentemente serve para intensificar comando, avaliação e descarte. Uma reforma que apenas adapta direitos mínimos à gestão algorítmica, sem mexer no poder das plataformas, pode tornar a uberização mais durável.

Contra o reformismo e contra a recusa estéril

O reformismo transforma a política em administração do possível e chama de extremismo qualquer tentativa de tocar na propriedade, no poder empresarial ou na lógica do lucro. Sob pressão fascista e autoritária, ele também pode defender a democracia apenas como normalidade institucional, esquecendo que desigualdade, desamparo e humilhação alimentam a extrema direita.

Mas a recusa abstrata de toda reforma também é uma forma de impotência. Quem trata cada direito imediato como distração abandona trabalhadores às derrotas presentes e imagina que a revolução surgirá sem organização construída nas lutas reais. A perspectiva luxemburguista exige outra coisa: disputar cada melhoria necessária, sem confundir a sobrevivência mais digna sob o capital com a superação do capital. A reforma vale não por encerrar o conflito, mas quando amplia a força coletiva capaz de levá-lo adiante.